Etiópia - No Reino do Prestes João


É impossível falar da Etiópia, o antigo reino da Abissínia, sem referir a figura de Preste João das Índias, um lendário soberano cristão do Oriente, patriarca, rei, imperador e descendente de Baltazar, um dos Três Reis Magos. Por esta razão a Etiópia também é conhecida pelo reino de Preste João.

A Origem

A tradição etíope considera como marco da fundação da sua dinastia real a união entre a rainha de Sabá e o rei Salomão, que resultou no nascimento de Menelik I, pai de toda a linhagem. No início da era Cristã forma-se o reino de Aksum e, no século IV, o Cristianismo torna-se a religião oficial do reino. Ao longo dos séculos a Etiópia resistiu às invasões árabes, à presença dos missionários portugueses, à tentativa de colonização italiana. Em 1930, Ras Tafari assume o poder e é coroado imperador com o nome de Halie Selassié, que significa "o poder da trindade". Por curiosidade, esta nação também é o berço espiritual da religião Rastafari e onde reside a mais antiga população muçulmana de África, em Negash. O povo etíope é constituído por mais de oitenta etnias e é, maioritariamente, cristão. A Etiópia é a segunda nação mais populosa da África e uma das duas nações africanas (a outra é A Libéria), não colonizadas por europeus. A língua oficial é o amárico.

O País 

Localizada no chamado Corno de África, a Etiópia faz fronteira com o Sudão e o Sudão do Sul a oeste, Djibuti e Eritreia a norte, Somália a leste e Quénia a sul, A maior parte do seu território está acima dos 2 000 metros de altitude. Desde a independência da província da Eritreia, a Etiópia perdeu um importante ponto estratégico de acesso ao Mar Vermelho, o que deu origem à agudização das relações entre os dois países. Fruto desta situação e dos longos períodos de seca, o mundo tem vindo a assistir a um dos maiores flagelos humanidade vivenciados pelo povo etíope - a fome. Na verdade, causa algum constrangimento e perplexidade constatar que um país tão rico em tradição e história, hoje seja conhecido por  razões de fome e de guerra. 
Depois de um primeiro contacto com a capital Adis-Abeba, cidade onde está instalada a sede da União Africana, iniciámos a nossa viagem rumo a norte para visitar as duas cidades Património Mundial da UNESCO - Gondar e Lalibela. De carro, por estradas repletas de gente em filas intermináveis, pode-se observar o movimento incessante de homens, mulheres e crianças a deslocarem-se das suas aldeias para as feiras e mercados, locais onde todos se cruzam e todos se encontram, onde tudo se compra e tudo se vende, criando um verdadeiro cenário de sons, cheiros e cores. 


O Lago Tana - uma reserva natural

A caminho de Gondar é impossível não ir até ao Lago Tana, ponto confluente de quatro rios, entre eles o Nilo Azul. Neste grande lago povoado por 37 ilhas existem algumas igrejas ortodoxas, uma ponte - a Ponte portuguesa, cuja construção é atribuída aos missionários portugueses e um Mosteiro, meio escondido na floresta tropical, onde há mais de 600 anos os monges que nele habitam convivem de forma harmoniosa com a natureza. Estas ilhas de vegetação exuberante são  habitadas por colónias de aves aquáticas, crocodilos, hipopótamos e outros animais, proporcionando o registo de algumas deslumbrantes imagens. 

Gondar - A cidade dos Castelos

Mais a norte, estrategicamente localizada na base dos montes Simen, uma das mais altas cordilheiras de África, encontra-se Gondar, a última capital do império Etíope, fundada pelo imperador Fasil, em 1635. Esta cidade, também conhecida pela capital africana dos castelos, está cercada por uma muralha com cerca de 900 metros que serve de fortificação. No seu interior - Recinto Real, estão reunidos os mais importantes edifícios imperiais, entre os quais cinco castelos, o mais antigo atribuído ao imperador Fasil, e o mais recente datado de meados do século XVIII. Além de centro administrativo e comercial do império, Gondar foi também o seu centro religioso. Das dezenas de igrejas existentes, sete foram construídas por aquele imperador. Embora atualmente algumas destas igrejas estejam em ruínas, a mais importante, Debre Birhan Selassie, ainda se encontra bem conservada e é famosa pelos seus frescos pintados no teto, representando 80 rostos de arcanjos. 

Lalibela - O mistério das Igrejas subterrâneas

Algumas centenas de quilómetros para oeste, localizada a mais de 2.400 metros de altitude, no planalto de Amhara, encontra-se a fascinante cidade de Lalibela, principal centro de peregrinação da Igreja Cristã Ortodoxa e famosa pelas misteriosas igrejas subterrâneas esculpidas em rochas monolíticas. Ainda hoje os historiadores questionam como e porquê estas igrejas foram construídas. Nestes locais de culto ricamente decorados, encontram-se guardados valiosos tesouros religiosos, desde manuscritos ilustrados, bíblias com iluminuras, às conhecidas cruzes, símbolo da Igreja Ortodoxa Copta utilizadas pelos cristãos ortodoxos africanos da Etiópia e Eritréia. Das 11 igrejas existentes, algumas com mais de 9 metros de altura, escavadas abaixo do nível do solo e cercadas de pátios e fossos, a mais importante é a Igreja do Salvador, construída durante o reinado do rei Lalibela (1181-1221). Na cripta da Capela Selassié da Igreja Bet Golgotha, raramente aberta aos visitantes, dizem já ter abrigado a Arca da Aliança. Em todas estas igrejas se sente uma grande mística. Ter o privilégio de poder contemplar estes lugares e deixar envolver-se pelo ambiente, admirar a riqueza dos ornamentos religiosos e sentir o perfume  do incenso, escutar o arrepiante som dos cânticos e das orações, sem dúvida são momentos únicos. Talvez por tudo isso as igrejas de Lalibela são tão veneradas na Etiópia quanto as Grandes Pirâmides no Egito. 

A Etiópia é um dos países mais ricos e seculares de África e a História remete para a origem do homo sapiens nesta região do globo. Por isso o país merece uma visita cuidada e atenta. Para além do Património cultural, vale também a pena desfrutar de outros cenários. Observar a Rota das Caravanas de Sal, segundo relatos de viajantes uma das experiências mais extraordinárias pela incrível beleza que proporcionam. Subir a montanha e assistir ao espetáculo proporcionado pelo Vulcão Dellol. Visitar a cidade de Aksum e admirar os maiores obeliscos de pedra do mundo. Na verdade, o meu plano da viagem à Etiópia não foi cumprido. Aqui existe uma regra que impede a circulação de carros à noite - entre pôr e o nascer do sol, tal é o movimento de pessoas e animais nas estradas. Depois da perplexidade inicial - gosto de fazer longas viagens, independentemente das horas ou distâncias, a viagem tornou-se surpreendente. Tantas foram as peripécias vivenciadas e nada obstou a visita aos fabulosos locais que este país oferece.

Artigo publicado na revista Courrier Internacional, nº 212 de Outubro 2013.
Ver postpais, filme-1 
filme-2.

Cataratas de Tissisat no Nilo Azul, junto ao lago Tana em Bahir Dar

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Luis Filipe Gaspar, nasceu em Lisboa em 1958. Arquiteto e viajante incansável, já percorreu uma grande parte do Globo. O compromisso assumido consigo próprio é o de conhecer o Património Mundial.


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Neste Mapa-Múndi a cor de laranja representa os países já visitados.

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